Viagem até à Selva
15 e 16 de Maio (ida... sim, 2 dias)
Cheios de La Paz até nao poder mais, resolvemos ir esperar pelo maldito papel para entrar no Chile para outro lado. A Selva! Porque nao?!

Este nao é em La Paz, é em Rurrenabaque, na selva. De qualquer dos modos, os autocarros que se deslocam até aqui nao partem do terminal em La Paz... Têm a sua avenida própria, onde coexistem duas companhias.
O sitio eleito foi o de mais "fácil" acesso por estes lados, dentro deste mesmo país (pelos motivos já conhecidos). Rurrenabaque. Uma antiga povoaçao índia, completamente perdida no meio da selva e sem acessos possíveis (a nao ser o rio, a partir das outras comunidades índias que existiam, e ainda existem, ali à volta). Mais tarde, com a vinda dos espanhois, a coisa compôs-se um bocado e foram rasgados caminhos até ao seio da selva... O rio que passa naquela povoaçao já esteve, em tempo, cheio de ouro!
O maquinao! Em tempos, já foi de dois pisos, mas o de baixo está reduzido a bagageira. Assim, os passageiros viajam todos no 2 piso... Será por questoes de equilibrios de pesos? eheh
Para chegar até à dita vila, há que percorrer 19 horas de autocarro por estradas indescritiveis. A descida de altitude de La Paz para o vale tropical é rápida. De 3800m para uns míseros cento e picos em Rurrenabaque! Por esse motivo, a temperatura e paisagens ao longo de 17 horas da viagem sao bastante diferentes da montanha a que já vamos tendo os olhos acostumados.
A estrada foi escavada rasgando uma floresta densa, que insiste em a desmoronar ou invadir. A terra com consistencia de barro que compoe o solo da selva sem vegetaçao, empapa com pouca chuva e torna o percurso um inferno (para quem conduz). Como chuva é o que nao falta em ambientes tropicais, tenho para mim que o trânsito naquela única estrada que acede a Rurrenabaque deve ser sempre o mesmo festival.
De um lado, a encosta verde, orgulhosa e imponente. Do outro, o precipicio, com o rio Beni a cantar, paciente e castanho. Há alturas em que o fim da estrada se confunde com o autocarro e as vertigens de adrenalina em zonas de lama mais escorregadias nao deixa tirar os olhos da janela. Com fascínio, com curiosidade, com vontade de ver e adivinhar a próxima manobra do motorista para ultrapassar mais aquela curva, mais aquele autocarro, mais aquele camiao.
Pneu furado da praxe... O ritual de troca de pneus por aqui, nao deixa de nos surpreender... Até porque nao é bem uma troca o que fazem... é mais um conserto!
Olha-me bem isto! Fomos entretidos a viagem toda! Quer com a paisagem, com a estrada, com o abismo, com as ultrapassagens, com os rituais de paragem...
Fim do primeiro dia de viagem... Nesta passámos parte da manha, tarde, noite, e parte de outra manha.18h48min - CARANAVI
Parámos num local humido e quente ao qual nao se acede por estradas alcatroadas. Vamos jantar e já nos sentimos no interior de uma selva verde e poderosa há algumas horas. Sinto-me a desrespeitar a selva, transitanto por esta estrada que tanto parece despropositada no meio desta paisagem. A única coisa que nao faz sentido aqui, somos nós! A estrada é um rasgao castanho e cruel. Uma artéria plástica onde se passeiam autocarros e camioes desafiando as leis da natureza e da vida...
Meia hora com os pés no chao de uma Bolivia diferente. Menos alta, menos fria, menos seca.
Aqui, tirando os autocarros que vêm e vao para La Paz, nao vimos um único carro com matricula. Os carros sem identificaçao passeiam-se solenes defronte dos olhos dos policias sinaleiros. Sim! Existem policias sinaleiros neste local perdido, sem alcatrao, sem placas de matricula, mas com muita humidade e polícias sinaleiros!
Rurre ainda fica a 12 horas de viagem.
Estranhas estas viagens que duram mais que uma etapa do dia...
Entretanto, vamo-nos deliciando com as diferenças de sons, temperatura, humidade, oxigénio, descontracçao das gentes, alimentos... Se espreitarmos com muita atençao, talvez consigamos ver um animal ou outro!
Paragem para comer e casa-de-banho... Podémos ver um passageiro muito especial.
A qualidade do pavimento é do outro mundo! Nao foi assim durante umas centenas de metros, num troço em reparaçao... foi assim durante umas 17 horas!!!
Frases que se foram tornando célebres durante a viagem (fiz questao de anotar algumas.... nao nos fossemos esquecer e fica irremediavelmente perdida a emoçao desta viagem!):
"Agora é que estou a começar a ficar impressionado com a estrada!" Peter
"Ui! Vai devagar! Está tudo parado ali à frente e o cromo nao está a ver!" Peter
"Isto é digno de ser filmado!" Fi
"E ainda vai ultrapassar! Isto é que é!!!" Peter
"Impressiona porque é estreitinha!" Fi
"Digo-te já, isto é pior que a estrada da morte, mas é para camioes!" Peter
"Como é que eles conseguem dormir?!" Fi
"Achas que é o mesmo motorista a viagem toda?!" Fi
Etiquetas: América do Sul, Autocarro, Bolivia, Rurrenabaque, Viagem
Ida para La Paz - Bolivia
28 Abril
Esta vale a pena ser contada...
Entrámos no autocarro para umas 5 horas de viagem até La Paz. Recostámo-nos, pusemo-nos confortáveis. Lemos, escrevemos, fartámo-nos. Pusemo-nos a olhar para o filme na televisao. Estávamos quase de pestana fechada, quando param o autocarro. Olhamos pela janela. La Paz nao deveria ser... demasiado pequeno e calmo... Só poderia ser uma avaria do autocarro... Todos os passageiros estvam a sair. Lá fora, o lago continuava a acompanhar a nossa viagem.
Resolvemos perguntar se era mesmo para sairmos todos e o que se passava. Sim, é para sairmos todos. ¨Para cruzar el lago mamita!¨. Ah ok! E do outro lado está outro autocarro? É preciso levar as mochilas grandes connosco!
Nao. Nao era preciso. Nós atravessamos num barco, e o autocaro noutro... Do outro lado, voltamos a entrar no autocarro e prosseguimos a tranquila viagem até La Paz.
Etiquetas: América do Sul, Autocarro, Bolivia, Copacabana, La Paz, Viagem
Viagem Paracas -Cusco - Peru
(uma pequena anotaçao fora de sitio...)
11 para 12 de Abril


Nem sempre é fácil passar o tempo, ou fazer passar o tempo, nestas viagens. Esta foi de 15 hortas... As distâncias tornam-se muito relativas em terras assim tao grandes e 4 horas de viagem a separar um destino do outro... faz com que esses destinos sejam muito próximos...
Etiquetas: América do Sul, Autocarro, Cusco, Paracas, Peru, Viagem
Perú - Trujillo

22 Março - 20h05min
À espera do autocarro para Huaraz. Sentados na rua a respirar os ultimos sopros calmos de um ar quente, quase pastoso. Cruzamos as pernas e entregamos as costas á parede exterior da Agência 14, uma agência usada por "locais". Barata.
Respiramos fundo e tentamos nao reagir com o mesmo preconceito que reagem as gentes deste bairro ao se cruzarem connosco no seu caminho pós-jantar... "Gringos!" E levantam uma mao, um ombro ou um sobrollho... Um qualquer coisa mas sem simpatia. Natural. Nao vale a pena reagir com uma revolta de indignaçao ou com o mesmo preconceito. Vale a pena tentar explicar... Mas hoje já nao nos apetece mais.
Expiro prolongadamente enquanto perco os olhos nos doces pormenores comuns por estes bairros... À nossa frente sentam-se, no chao, na beira da calçada, um pai e a sua filha. Uma pequenina, muito pequenina, de cabelo grande, enrolada sobre os seus joelhos... Quase que os abraça. Tem voz doce e infantil e faz perguntas pertinentes ao pai.
O pai, jovem também, de cabelo curto, quase que abraça os seus joelhos, os dele e os dela. E perde o olhar de e com carinho nos olhos da filha. Os dois de costas para nós... Só nos deixam adivinhar esta dança amistosa de palavras com os olhares que vao trocando.
A pequena vê todas as perguntas respondidas. O pai recosta-se sobre os punhos, servindo-se dos braços esticados como encosto de cadeira e assobia ao ar calmo e quente que passa.
Agora somos quatro perdidos nos pormenores que sempre existem nestes bairros. Eu perdi-me algures no meio de toda a ternura daquela cena, que nao consigo transpor para palavras...
As gentes continuam a passar, mas já nao se escuta "gringos". O assobio acalmou tudo e é tranquilizante, enebriante de mais...
Foi, sem duvida, um momento mágico. Mas a magia nao ficou por ali. momentos depois, o silêncio. E mais uns depois, o render da guarda: da pequena que faz perguntas pertinentes por um petiz que nao caminha e, do sono que tem, mal se aguenta sentado. Encaixa-se num género de bolsa feita pelas pernas do pai, que o acolhe com um carinho enexplicável... Levanta a cabeça, como pode, com uns olhos curiosos apontados na nossa direcçao e deixa um pequeno tufo de cabelo ao vento, que o levanta e lhe dá o ar mais cómico, ternurento e ensonado que me lembro de ter visto.
E assim surge a conversa. Com uma risada minha, um assobio do Pedro e um diz "Hola" do pai...
Que sempre teve o mal dentro dele. Que batia na mulher e tudo. Que se punha infeliz se nao tinha comida. Que bebia. Que foi para o exercito porque queria treinar-se para ir para as FARC (a guerrilha colombiana). Até que um dia ouviu uma voz de anjos a cantar uma música e mudou completamente de comportamento. Era essa a musica que estava a assobiar. Impressionante, o ar sao com que nos contou tudo... incrivel como nao o julgámos louco, nem por um instante de segundo.
Nao tem nada, para além da mulher e dos filhos e de uns irmaos (11) que nao vê há 9 anos. Esta noite vai entrar no autocarro para ir ter com eles, para os abraçar e procurar trabalho. Para ter comida para os filhos. Juntaram os trocos que tinham e compraram os bilhetes de 35 sols cada cabeça. E ainda lhe sobraram uns trocos... Parte deles investidos numa garrafa de água para nós... Porque o sr da bodega estava com sono e a nossa nota de 10 nao lhe dava jeito nenhum...
Falou-nos em deus, o seu deus. A sua fonte de energia.
O acordar da consciência universal... A energia, ou a força, que quase todos sentimos (?) e que cada um explica como pode... e consegue.

E mais uma viagem nocturna!!!! Se encostamos o corpinho numa cama... até pensamos que é mentira!
Etiquetas: América do Sul, Autocarro, Peru, Praia, Trujillo, Viagem
Por aqui o que reina em termos de transporte é o chamado: MOTOTAXI!! Umveículo híbrido entre a moto e o taxi. Deliciem-se!
Apesar da gasolina estar cara... Estes OVNIS poucas vezes andam sem ser prego-a-fundo...
Nao se deixemiludir pelo aspecto frágil dos bichos... So as nossas mochilas devem totalizar facilmente uns 50 Kgs!!
A bordo deste estranho engenho já com ideias malucas de propormos uma viagem de longo curso ao condutor!!
Máncora é assim... Vive-se a descontracao absoluta. 21 de Março
Hora de partir de Mâncora. O formigueiro nos pés cresce de cada vez que olhamos para um mapa e está na hora de imprimir novo movimento...
Viajar pela noite... Perde-se a paisagem, mas ganham-se umas 8-9h e menos uma noite de hotel (hostal, pensao, nao se deixem enganar pelas palavras!).
O autocarro... atrasado. Meia hora, para já. Ninguém comenta. É normal. Nós também nao comentamos. A paciencia é diferente nestes movimentos. Tem de ser. Faz-se ser. Além disso, quanto mais tarde chegar o autocarro, mais tarde chegamos ao destino, menos de noite, mais de madrugada... menos perigos... nao que existam muitos... mas isto já se sabe: uns cuidaditos nunca sao demais, desde que nao nos estraguem o espìrito...
Para fazer duas quadras, a simpática sra que nos vendeu os bilhetes de autocarro, chamou um mototaxi. "Nao é preciso, vamos a pé!". Porque eles tem olho para o negócio e parados duas quadras mais à frente corriamos sérios riscos de nos levarem uns 2 ou 3 sols pela viagem de mototaxi... "Mamita, es mi hermanito, no vos va a cobrar nada! Es parte...". Vao pagandos alguns justos por outros pecadores... "Gracias. Perdona señora..."
Etiquetas: América do Sul, Autocarro, Mâncora, Peru, Praia, Viagem





